25 de ago de 2009

Brasil: Rosângela Rennó






































Com trajetória iniciada nos anos 80, Rosângela Rennó ganha forte projeção a partir da década seguinte. Ela surge efetivamente na cena brasileira como uma artista que pauta sua poética pela apropriação e manipulação dos elementos que constituem esse fenômeno que parece ser uma espécie de "cultura material" muito específica, capitaneada pelo universo de imagens fixadas em papel por meio fotográfico e fotomecânico, em ação em nossa sociedade desde o século XIX. Mas não apenas por ele, mas também por outros objetos ou estruturas textuais que ele fez proliferar: álbuns de fotografias, passe-partout para fotos, legendas de fotos publicadas em jornais etc.

Embora com formação no campo da fotografia, Rennó raramente fotografou. Para que fotografar se o mundo está repleto de imagens fotográficas? Por que não imprimir novos sentidos a essas imagens forjadas no passado, com uma pontual intervenção?

Em meados dos anos 90, a artista desenvolveu a Série Vermelha, composta por 15 fotografias. Essa série apresenta fotografias de crianças, garotos e homens vestidos com roupas militares, fotos das quais a artista se apropriou e nas quais interferiu, ampliando-as, fazendo cortes e mergulhando-as em um forte tom de vermelho que quase as vela para sempre.

A instalação Hipocampo representa um outro momento na trajetória de Rosangela Rennó, em que fica visível como seu interesse extrapola a própria imagem fotográfica já existente para localizar-se em outros elementos daquela "cultura material" formada a partir das fotos. Ali, o que foi apresentado ao público, em uma exposição no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, foi uma parte da série imensa de legendas de fotos publicadas em jornais e revistas, que Rennó coleciona há anos. Separando essas legendas das fotos que as originaram, justapondo-as em formas geométricas em um espaço determinado - e de uma maneira em que elas aparecem quando a sala está escura e somem quando a sala se ilumina -, a artista mais do que nunca aguça a certeza em todos nós de o quanto a fotografia é capaz de configurar nossa subjetividade e memória coletiva.

Apesar de, desde os anos 80, Rennó trabalhe com a manipulação da fotografia já pronta, a artista nunca deixou dúvidas de que sua questão não é própria e tão-somente a matéria fotográfica, mas também aquele universo de objetos e textos que proliferam com a fotografia. Sempre ficou claro - pela capacidade de transcedência de suas fotos manipuladas, objetos e instalações - que a grande preocupação de Rennó é a busca da identidade do eu na contemporaneidade, sua capacidade de migração, deslocamento.

Na videoinstalação Espelho Diário, há uma explicitação do âmago da poética da artista. Há ali uma Rosângela Rennó que se identifica migrando para a vida de inúmeras Rosângelas. A artista se perde enquanto indivíduo burguês para se encontrar no coletivo de mulheres que, apesar de todas as diferenças, recuperam os pontos de igualdade. Espelho Diário, sem dúvida, pode ser interpretado como um marco na obra da artista e pode ser entendida como um ponto de chegada de sua trajetória, uma síntese desse seu caminho tão peculiar não apenas na arte brasileira como internacional. Um ponto de chegada, mas um ponto de partida também para outros desafios que a poesia e a vida lançarão a Rosângela Rennó.

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