25 de ago de 2009

Brasil: Helga Stein - a identidade, o eu e o não-eu


A partir da linguagem dos fotologs, projeto andros hertz, de Helga Stein, exposto no Itaú Cultural, em 2006, discutia a manipulação de imagens, versossimilhança e identidades na era da internet. Com curadoria de Eder Chiodetto, a exposição era composta por auto-retratos, trabalho a que a artista paulista, radicada em Goiânia, vinha se dedicando há dois anos.
No conjunto de imagens manipuladas no computador, a artista criava personagens e personalidades múltiplas, (des)aparecendo como louca, bêbada, machão, afeminado, andrógino, vagabunda, princesa, idosa, bobinha e gostosona.
Resultado de inúmeras vivências em fotologs - diários de imagens feitos para a internet - e de um domínio rigoroso de um dos mais populares softwares de edição de imagens - o photoshop, andros hertz discute a dinâmica da Sociedade do espetáculo (1967), obra do pensador francês Guy Debord, no tempo da internet e da cultura do faça-você-mesmo.
Debord dizia: "O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediada por imagens". E Helga, com seus "andros", parece dizer: a cultura de rede não é um espetáculo; ela se transforma em espetáculo quando se torna uma relação social entre imagens, mediada por pessoas.
Difícil não ceder a essa hipótese quando se acessa o álbum de fotos que acompanha a exposição e está hospedado no Flickr, um site que serve de plataforma para organização de redes sociais, como o conhecido Orkut, mas que é baseado em fotos.
A mostra do Itaú funcionou como uma versão analógica do álbum exposto no Flickr (www.flickr.com/photos/helgastein), o lugar onde a artista, mostra sua destreza com o fotoshop, a que denomina de "boboshop".
Sem ceder a fetiches high-tech, desdenha do programa que usa e de quem se apaixona por seus loiros, suas ruivas e morenas, denunciando a emergência de um corpo escaneável que se viabiliza e se realiza pela tela e através das lentes.
O curto-circuito que promove, transitando entre circuitos on e offline, põe em questão a esterilidade das discussões pautadas pelo termo "novas mídias" em oposição a "velhas ou outras mídias", sugerindo uma abordagem ecológica, em que a emergência de uma determinada mídia não põe fim à anterior. Incorpora alguns de seus atributos e reconfigura e transforma as que lhe precederam, não podendo ser pensada isoladamente. O ruído das imagens expostas no Itaú não pode ser captado sem que se relacione o contexto de autoexposição a que diversos sites remetem.
Levando a banalidade da experiência "overmidiática" ao seu limite, ela se disponibiliza febrilmente na web, criando um jogo pseudo-erótico de enigmas que nos convidam a iniciar a Guerrilha do Sofá, conclamada pela crítica Ivana Bentes, contra o mundo chato em que "tudo se confessa diante das câmeras e na V. E tanto a confissão quanto a vigilância se tornam entretenimento, espetáculo e, frequentemente, tédio".

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